Astros do cinema brasileiro, Wagner Moura e Selton Mello têm no filme ‘Trash’ seu primeiro encontro nas telas


Produção dirigida pelo inglês Stephen Daldry, o mesmo de ‘Billy Elliot’, estreia no Brasil nesta quinta-feira. 




RIO — Há muitas formas de se enxergar o encontro inédito que poderá ser visto, a partir desta quinta-feira, nos cinemas brasileiros. O Capitão Nascimento com o Palhaço Pangaré? O salva-vidas Donato com o atormentado Lourenço? O cientista Zero com o imigrante Jean Charles? O malandro Naldinho com o medroso Chicó? Ou o presidiário Zico com o traficante Johnny?

Em todos os pontos de vista, independentemente do personagem que mais marcou os fãs, o baiano Wagner Moura e o mineiro Selton Mello são dois dos atores mais celebrados do cinema brasileiro contemporâneo. Juntos, eles acumulam quase 70 prêmios, mas nunca haviam contracenado juntos até receberem um convite do inglês Stephen Daldry para integrar o elenco de “Trash — A esperança vem do lixo”. O filme é uma megaprodução internacional, toda rodada no Rio, que estreia nesta quinta no Brasil e que marca o primeiro encontro entre Wagner e Selton, logo como antagonistas e com direito a uma cena de tortura.

— Teve um dia em que a gente passou um tempo lá em casa bebendo vinho e conversando sobre achar alguma coisa para fazer juntos. A ideia era tocar logo alguma coisa, antes que aparecesse um gringo e convidasse a gente. Mas o gringo apareceu antes _ conta Wagner.

 O lance é que ainda somos novos, tínhamos tempo para encontrar os papéis certos — acrescenta Selton. — Aliás, eu tinha chamado o Wagner para ser o protagonista de “O palhaço” (filme de 2011, dirigido pelo próprio Selton). Só que ele estava trabalhando no “Tropa de Elite 2” (2010) e não pôde. Acabou que foi o Wagner que me incentivou a fazer meu personagem no “Palhaço”.

Em “Trash”, Wagner vive José Angelo, um homem idealista que tenta denunciar um esquema de corrupção, enquanto Selton interpreta o policial mau-caráter Frederico. Os dois são coadjuvantes de um thriller centrado em três meninos (vividos pelos novatos Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein) que encontram uma carteira num lixão e passam a percorrer a cidade para solucionar o mistério associado à descoberta.

Também com as participações de Martin Sheen e Rooney Mara, “Trash” é o quinto longa-metragem de Daldry, cineasta que conseguiu levar para a disputa do Oscar todos os seus filmes anteriores: “Billy Elliot” (2000), “As horas” (2002), “O leitor” (2008) e “Tão forte e tão perto” (2011).

— Falar sobre Selton e Wagner é igual a quando perguntam como foi dirigir Meryl Streep. O que posso dizer? Foi fabuloso. Eu não precisava falar muita coisa para eles, apenas pedia que eles fizessem a cena e eles faziam — explica Daldry, que voltou ao Brasil nesta semana para apresentar “Trash” na sessão de encerramento do Festival do Rio, anteontem.

Os dois atores revelam que seu primeiro encontro com Daldry foi bem mais simples do que esperavam para um diretor requisitado. Não houve testes, longas conversas ou seleção de elenco. Daldry apenas almoçou com cada um deles e fechou a parceria.

— Eu imaginei que faria 200 testes com o cara para ele ficar convencido, mas não teve nada disso. Acho que ele já tinha visto “O cheiro do ralo” (2006) e “O palhaço” e usou aquele almoço só para me sacar — afirma Selton. — Ele tem um lance sensível de olhar para você e te entender. No set era parecido. Ele às vezes pedia para a gente improvisar, para fazer as cenas de outro jeito. A gente fazia e, mesmo sem entender português, ele dizia que daquele novo jeito estava melhor. Acho que ele prestava atenção na musicalidade, no jeito como a gente falava.

O que certamente mais vai chamar a atenção dos espectadores no trabalho de Wagner e Selton é uma cena de tortura policial, em que o primeiro apanha do segundo. A sequência foi gravada no início do ano, quase dois meses após o término das filmagens.

— Acho que, quando eles terminaram o filme, perceberam que não tinham colocado nós 
dois juntos. E então nos ligaram e pediram para voltarmos para uma gravação extra — brinca Wagner. — Falando sério, é uma cena importante para a história. E foi um negócio meio forte, eu usava uma maquiagem pesada. Mas o pior foi que eu perdi um pedaço da minha córnea na gravação. Não sei bem o que aconteceu, acho que foi na hora de tirar a maquiagem. Mas eu tinha que viajar para o Festival de Berlim, para apresentar o “Praia do Futuro” no dia seguinte. Passei a noite no médico e viajei com uma lente de proteção no olho.

Para o público brasileiro que assistir a “Trash”, Wagner e Selton servirão como elos entre a visão de um inglês sobre a realidade do país. Com roteiro de Richard Curtis (de “Quatro casamentos e um funeral” e “Um lugar chamado Notting Hill”), o filme é focado nos desejos e na esperança de três meninos pobres, mas passa por temas como miséria, corrupção e truculência policial. É o tipo de produção que certamente vai gerar uma pergunta: o que diabos estrangeiros sabem para tratar dos problemas brasileiros?

— Eu acho bom que seja um olhar diferente. E acho que essa resistência que costuma haver dos brasileiros para olhares estrangeiros é um pouco xenófoba, como se só a gente pudesse enxergar e falar sobre nossos problemas — diz Wagner. — É bom que venha um cara da estatura do Daldry para abordar esses assuntos.

De certa forma, o próprio Wagner participa hoje de uma produção que leva um olhar estrangeiro para outro país. Ele fez uma pausa de três dias para vir ao Festival do Rio, mas tem passado quase todo o seu tempo na Colômbia, onde grava, sob direção de José Padilha, a série “Narcos”. Trata-se de uma produção exclusiva da Netflix, com estreia prevista para o ano que vem, sobre o cartel do colombiano Pablo Escobar, personagem de Wagner.

Já Selton tem se dedicado à pré-produção de “O filme da minha vida”, seu próximo longa como ator e diretor. A obra é baseada no livro chileno “Um pai de cinema”, de Antonio Skármeta, o mesmo autor de “O carteiro e o poeta”, e será rodada no primeiro semestre de 2015. Depois, ele irá atuar em “Zama”, o novo filme da argentina Lucrecia Martel.

— Ajudo a coproduzir meus filmes e vejo a dificuldade gigante que é, como a burocracia emperra tudo, como filmar hoje no Rio é caríssimo — diz Selton, destacando a relevância do movimento Rio: Mais Cinema, Menos Cenário, lançado por um grupo de cineastas durante o Festival do Rio para pedir mudanças nas políticas para o audiovisual de estado e prefeitura. — É importante deixar claro que outra linguagem pode ser feita, não só os filmes comerciais. Temos que ter todos os tipos de cinema.

Selton e Wagner são, certamente, bons exemplos de atores que dialogam bem entre o cinema comercial e o cinema de arte. No currículo do primeiro estão obras como “O auto da compadecida” (2000), “Lavoura Arcaica” (2001) e “Meu nome não é Johnny” (2008). No do segundo aparecem “Cidade Baixa” (2005), “Tropa de elite” (2007) e “Elysium” (2013).

Antes de “Trash”, o único trabalho em que os nomes dos dois surgiram nos créditos foi no filme “Nina” (2004), de Heitor Dhalia, em que tiveram papéis mínimos e não contracenaram. Agora, para o futuro, quem sabe?, isso pode mudar.

— Selton é a referência da nossa geração. É um farol. Tudo o que a gente queria fazer, ele fez antes — afirma Wagner.

— Se eu era referência, ele foi além. Wagner é o maior ator da minha geração. No dia em que a gente rodou a cena da tortura em “Trash”, prestei atenção no método dele e consegui entender como seus personagens são tão profundos — diz Selton.

Fonte: O Globo

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