Os desafios de Wagner Moura



O ator volta às telas do cinema como protagonista do filme “Praia do Futuro”, dirigido por Karim Aïnouz, com estreia prevista para o dia primeiro de maio. Mas a rotina do baiano não dá sossego. Entre seus projetos principais, Wagner dedica-se a um novo desafio: dirigir seu primeiro longa-metragem, que contará a história do revolucionário Carlos Marighella

Wagner Moura é fã de café coado – e, de preferência, em uma xícara grande. “Não existe mais café coado no universo. Só na casa das pessoas”, diz o ator, deixando escapar um traço de sua personalidade, a simplicidade. Não gosta de glamour e menos ainda de ser tratado como celebridade. Atuar, para ele, é apenas um ofício. Natural de Salvador, tem a Bahia, até hoje, como sua grande paixão e o melhor destino do mundo para viajar com os três filhos – Bem, Salvador e José – e a mulher, a fotógrafa Sandra Delgado.

Formado em jornalismo, optou definitivamente pelos palcos quando percebeu que a arte lhe oferecia mais possibilidades do que a rotina na redação. “Naquela ocasião, isso parecia um absurdo, mas no fundo eu já sabia o que queria”, lembra. Wagner chamou a atenção da crítica já em seu primeiro espetáculo no Rio, “A Máquina”, em 2000. Logo depois, foi chamado por Cacá Diegues para protagonizar o filme “Deus é brasileiro”. O sucesso popular veio em 2007, ano do ambicioso personagem Olavo Novaes, da novela “Paraíso Tropical”, e também do Capitão Nascimento, do filme ‘Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha. O longa recebeu o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim 2008, e teve sua continuação lançada em 
2010: “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro”.

Agora, em 2014, o ator esteve mais uma vez na capital alemã concorrendo ao Urso de Ouro com o filme “Praia do Futuro” – coprodução entre Brasil e Alemanha, que estreia nos cinemas brasileiros no dia primeiro de maio. Dirigida por Karim Aïnouz, a trama conta a história do salva-vidas Donato, interpretado por Wagner, que trabalha na Praia do Futuro, em Fortaleza. Quando falha pela primeira vez em resgatar uma vida no mar, Donato acaba conhecendo Konrad (Clemens Schick), um alemão, piloto de moto velocidade, amigo do afogado. Donato parte com Konrad para Berlim e desaparece, deixando o irmão mais novo para trás. Anos depois, Ayrton (Jesuíta Barbosa), já adolescente, se aventura em busca de Donato para um acerto de contas com aquele que considerava seu herói.

Em breve, Wagner deverá fazer sua estreia atrás das câmeras. Ele se prepara para levar às telas um filme sobre a vida de Carlos Marighella, político baiano que lutou contra o regime militar e foi assassinado em 1969. Será a sua primeira experiência como diretor. O novo projeto ocupa grande parte de seu tempo. O roteiro, escrito por Felipe Braga, será baseado no livro “Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, do jornalista Mário Magalhães. Produzido pela O2 Filmes, empresa do cineasta Fernando Meirelles, o filme está previsto para ser rodado no final de 2015 e lançado em 2016. Em entrevista exclusiva à Avianca em Revista, o ator compartilha detalhes sobre diferentes aspectos de sua vida.



Como é o seu processo de incorporação de personagem?
Nenhum processo é igual a outro. O bom de cada experiência é justamente a possibilidade de aprender alguma coisa nova com os colegas, os diretores, a equipe. Então, o que eu procuro é justamente estar aberto a esses encontros.

Há aprendizados durante cada novo processo, seja uma novela, cinema ou teatro?
Eu acho que, no fundo, é por isso que eu sigo trabalhando como ator. A pessoa que eu sou não difere do artista. Não gosto do termo “carreira”. Quando resolvo fazer alguma coisa, penso logo no que aquilo pode acrescentar à minha vida. Não faz mais sentido fazer o que quer que seja se não for assim.

Quem são as suas inspirações em cada umas das áreas da interpretação (TV, cinema e teatro)?
Os artistas da música me inspiram muito. Caetano é sempre uma referência para qualquer coisa. Radiohead, Cidadão Instigado, Rodrigo Amarante. Tenho ouvido muita música portuguesa, Antonio Zambujo, Carminho, Ana Moura, Gisela João. Fernanda Montenegro é sempre uma inspiração. Recentemente, ‘O Som ao Redor’, do Kleber Mendonça, foi um filme que me impressionou muito. Zé Padilha é um grande parceiro, grande referência. Karim (Aïnouz) também se tornou outra. Lázaro (Ramos), Selton (Mello), Vladimir (Brichta), os atores da minha geração. Aderbal Freire Filho, meu mestre. Gregório Duvivier é um artista que eu admiro cada vez mais. Enfim, muita gente.

Você ainda pensa em fazer novelas nacionais? Há espaço na sua agenda?
Agora não. Tenho trabalhado muito no “Marighella”, filme que eu vou dirigir ano que vem. A novela demanda uma disponibilidade de tempo que eu não tenho no momento.

Se pudesse escolher um personagem de um filme que já viu, qual gostaria de ter feito?
Simba, do Rei Leão. É Hamlet para crianças.

Como você chegou até esse personagem da Praia do Futuro?
Foi um convite de Karim Aïnouz, que finalmente me deu uma chance de trabalhar com ele.

O que te motivou a aceitar o papel para o Praia do Futuro?
Eu faria qualquer coisa que ele me propusesse, mas o personagem é muito bonito, como convém aos personagens dos filmes do Karim.

Como foi o processo de pré e durante a filmagem?
Muito ensaio, como deveriam ser todos os filmes. As produções de cinema ainda não entenderam o valor do ensaio. Durante a filmagem, foi só o prazer de estar com Clemens (Schick), Jesuíta (Barbosa), Karim e toda equipe.

Como foi gravar as cenas de nudez? Foi diferente do filme Romance?
Foi diferente na medida em que são filmes diferentes, mas não foram as cenas mais difíceis que fiz na vida.

Fazer um papel homossexual tem alguma relevância para o ator?
Tanta quanto fazer um heterossexual.

Qual é sua opinião sobre a receptividade do público no Festival de Berlim?
“Praia do Futuro” só teve boas críticas em Berlim. A Variety, por exemplo, fez uma crítica consagradora. “Tropa de Elite”, que ganhou o Urso de Ouro, recebeu algumas críticas duríssimas lá. A crítica é importante, mas não tanto.

Na sua opinião, o público brasileiro terá uma receptividade diferente de outros países?
É difícil prever a receptividade do público. Aqui no Brasil as pessoas conhecem mais o meu trabalho e o do Karim. É provável que isso desperte alguma curiosidade sobre o filme.

Se o “Praia do Futuro” não estivesse concorrendo, qual filme você gostaria que 
ganhasse?
Não consegui ver nenhum filme lá. Nós trabalhamos muito na divulgação do Praia. Eu soube que o “Boyhood”, do Linklater, é muito bom.

Espera que seja indicado para concorrer ao Oscar pelo Brasil?
Não tinha pensado nisso.

O Capitão Nascimento ainda é o seu maior personagem?
É, certamente, o mais popular.

Sobre o filme “Elisyum”, como são vistos os atores brasileiros ganhando destaque em Hollywood?
Não sei como os atores brasileiros são vistos. No “Elysium” eles me trataram muito bem. Rodrigo (Santoro) e Alice (Braga) são dois ótimos atores brasileiros, que, cada vez mais, ganham espaço nos filmes americanos.

Qual é a grande diferença entre filmar no Brasil e numa produção internacional desse porte?
Dinheiro. Lá era tudo maior, com mais gente, mais recursos, mais tudo. A comida do set também era mais gostosa, mas no geral é tudo a mesma coisa.

Há alguma história marcante da infância que tenha tido um impacto decisivo na orientação da carreira?
Não. Acho que eu fui parar no teatro mais por uma inadequação social do que por ter manifestado qualquer talento especial. Eu queria era achar uma turma.

Qual foi a primeira vez que você subiu no palco? Como foi a experiência?
Acho que foi na quadra da Casa Via Magia, em Salvador, onde eu comecei a fazer teatro. Me lembro que estava com dor de cabeça.

Quais são seus planos profissionais futuros?
Meu maior projeto é dirigir o filme sobre Carlos Marighella. Cada vez mais eu me aproximo dele e do espírito dos que lutaram contra a ditadura militar que se instalou aqui há exatos 50 anos. É um filme grande, produzido pela O2 e escrito por Felipe Braga, que têm sido grandes parceiros. Um olhar da minha geração sobre aquela. Estou muito animado e feliz com o rumo que o projeto está tomando.

Em relação à banda “Sua Mãe”, qual é o espaço na sua agenda dedicado para o grupo? Quais são teus planos com a música?
Nós temos uma sobra de material que decidimos não usar no “The Very Best of The Greatest Hits”, que era basicamente um disco com músicas nossas. Esse material são só covers de Reginaldo Rossi, Odair José, Fernando Mendes, Márcio Greick e Waldick Soriano. É muito bom. Estamos querendo lançar esse CD. Eu e Gabriel (Carvalho) vamos tocar algumas dessas no programa de Dado Villa Lobos no canal Bis, esse mês. Nós recebemos muitas propostas legais, mas fazer show é complicado. Somos sete caras ocupados, juntar todo mundo é um saco. Sempre foi assim.

Agradecimentos:
Hotel Fasano
Paula Mello
Olga Stockler
Por Camila Balthazar
Fotos Fernando Young
Fonte: Avianca Revista

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