Wagner Moura fala sobre Vips

Considerado um dos atores mais talentosos de sua geração, Wagner Moura participou de 18 longas em apenas 10 anos de carreira no cinema. Em VIPs, ele vive Marcelo da Rocha, um homem a procura de si mesmo, que alimenta o sonho de aprender a voar e, em suas aventuras, faz-se passar por outras pessoas.

Confira a entrevista com o protagonista de Vips:



Como foram as primeiras conversas com o Toniko sobre o personagem?

Entendi que o Toniko, assim como eu e o Bráulio Mantovani (roteirista), enxergou nessa história a oportunidade de apresentar ao público um personagem complexo. O Toniko queria ir além da anedota do 171 que enganou geral. Resolvi fazer o filme porque saquei que o Toniko também queria tirar algo mais dali.

Por que você (ou vocês) decidiu não encontrar o verdadeiro Marcelo no trabalho de preparação?

Para mim, para a construção do meu Marcelo (verdadeiro também, já que existe ali naquele universo criado por nós), a figura do estelionatário não interessava. Muito pelo contrário: quanto mais eu procurava saber do cara, mais certeza eu tinha do que eu NÃO queria fazer. Não quis participar de um filme engraçadinho sobre um bandido. Não vejo a menor graça nisso. Há aí um posicionamento moral, mas o que para mim foi preponderante nessa (não) escolha, foi o fator estético. O personagem apresentado no roteiro do Bráulio e do Thiago Dottori tinha um potencial de complexidade dramática que o dito Marcelo real não tem a priori.

Você fez algum trabalho específico para compor o Marcelo adolescente?

Essa parte foi mesmo muito difícil, porque eu já tenho 34 anos. Fiz como o próprio Marcelo; acreditei e segui em frente. Quando vi algumas fotos minhas com 17 anos, também achei por bem perder alguns quilos para essa primeira fase.

E como foi o trabalho de marcar essa passagem do tempo – na segunda parte do filme, Marcelo já adulto, mas bastante diferente das outras pessoas à sua volta?

Uma coisa fundamental foi o trabalho da Donna Meirelles (preparadora de elenco). Passamos muito tempo juntos experimentando e conversando sobre o personagem, assim como com o Fred Pinto (diretor de arte), o Maurinho Pinheiro (fotógrafo), a Verô (Verônica Julian, figurinista), o Toniko… O visual de cada personagem foi exaustivamente discutido, e foi fundamental para me ajudar a marcar essa passagem de tempo. Gosto muito do resultado.

Como foi trabalhar com a Gisele Froes? E com a Arieta Corrêa? Houve algum exercício para ganhar intimidade com elas antes de filmar?

A Gisele é uma atriz extraordinária, que eu admiro já há muito tempo. O nó do Marcelo com a mãe é muito complicado, por isso a gente conversou muito sobre isso, eu Gisele e Toniko. Ensaiamos, improvisamos… Um processo que só seria possível com uma grande atriz. A Arieta é outra grande atriz que fez também um excelente trabalho com a Sandra, talvez a única personagem do filme que saca o Marcelo de verdade. Eu já conhecia a Arieta, mas a gente nunca tinha trabalhado junto, e foi maravilhoso também. A coisa que eu mais gosto nessa profissão são justamente esses encontros. Tenho uma admiração enorme por atores, amo contracenar, e quando encontro pessoas como Gisele e Arieta, sinto que estou ainda na profissão certa.

Para você, quais são os temas mais importantes do filme?

Ver alguém em busca de si mesmo é sempre algo comovente. Essa busca é de todos nós, é nossa luta diária. Se encontrar, se entender, se perdoar, se reinventar, não se afastar de si próprio…. O jeito equivocado que o Marcelo o faz é revelador da patologia dos nossos tempos, da cobrança por “ser alguém”, do vazio do mundo das celebridades (são “alguém” os que aparecem na TV?), da falta de afeto nas relações familiares, da enorme falta que faz um pai, da importância do amor de mãe. Mas o filme é também um atestado moral de que o caminho fácil não existe, por mais brilhante que seja o caminhante.

Por que a história do Marcelo tornou-se tão fascinante para o público? Quais os componentes que tornaram essa fábula tão atraente a ponto de chegar ao cinema?

O público se diverte com a história de um picareta que enganou outros. O Marcelo da Rocha teve a cara de pau necessária para se dar bem em cima de playboys e celebridades de atributos duvidosos. Ele encarnou o espírito macunaímico do brasileiro esperto, do pícaro, do João Grilo, do Arlequim brasileiro, do Robin Hood vingador. Há aí um fator forte de identificação que faz com que o sujeito que passa a vida ouvindo desaforo do chefe se sinta vingado, se colocando na pele de um cara que se deu bem em cima dos “poderosos”.

Como foi trabalhar com o Toniko? Como é ele no set? Você chegou a dar conselhos e orientações a ele, uma vez que você já atuou em vários filmes e ele estava em seu primeiro longa-metragem?

Firmei uma parceria boa com Toniko. Um filme tem que ser feito com todo mundo jogando junto e a favor de um projeto, por isso é muito importante que haja conversas e ensaios antes para que se tenha certeza de que estão todos fazendo o mesmo filme, contando a mesma história – e isso nós tivemos. Houve um bom período de ensaios em que pudemos entender juntos a história que queríamos contar. Eu e Toniko trabalhamos cúmplices, vigilantes quanto a possíveis leituras equivocadas das cenas e das atitudes do personagem.

Fonte: blog oficial do filme

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