Vamos com calma


Por Wagner Moura


Crianças se divertem na piscina do líder do tráfico no Alemão

Estamos todos muito contentes com o fato de as comunidades do Cruzeiro e do Alemão estarem (pelo menos provisoriamente) livres do jugo do tráfico? Estamos felizes por ninguém ter morrido na invasão do Alemão? Claro, ou não, são também os moradores dessas regiões, cariocas, brasileiros que têm direito de ir e vir? Estou feliz pelo Rio, pelo Brasil, por nós todos, mas, principalmente, estou feliz por quem mora na Penha. No entanto, preciso dizer: vamos com calma. A cobertura que grandes veículos de comunicação têm dado às operações policiais é de um triunfalismo perigoso que pode induzir a uma solução simplista (diga-se de passagem, muito mais sóbrias têm sido as declarações do secretário de Segurança e do governador do Rio).

A população da zona sul carioca (como microcosmo de nossa classe média-alta brasileira), embalada com a cobertura televisiva, em geral se divide entre a excitação com “o dia D” redentor e a frustração por não ter visto aqueles traficantes em fuga serem alvejados por um atirador num helicóptero. As comunidades livres dos traficantes? É possível. Está havendo uma mudança de paradigmas quando se fala em tráfico de drogas, talvez o modelo do jovem de periferia armado vendendo pó esteja mesmo acabando.

O Estado agora não pode sair das favelas reconquistadas, sob pena de repetição do esquema polícia invade-muita-gente- -morre-polícia-sai-o-tráfico-volta-e-toca-o- -terror-na-comunidade, mas também não pode se manter lá só com a força policial, ou a mesma pode estabelecer uma relação de dominação semelhante à do tráfico ou das milícias com os moradores. O Estado precisa se fazer presente por inteiro. As UPPs são um ótimo primeiro passo, embora a polícia não tenha efetivo para se instalar agora nem na Penha nem em outras centenas de favelas cariocas dominadas por poderes paralelos. Na Vila Cruzeiro e no Alemão, o jeito vai ser deixar o Exército tomando conta por sete meses enquanto esses policiais da futura UPP são contratados e treinados. De tudo, o melhor foi ouvir que a Prefeitura do Rio tem um plano de urbanização e políticas sociais e culturais para as favelas invadidas.

Torço para que os agentes desse plano já façam companhia às Forças Armadas nesses sete meses, deixando alguns soldados livres para auxiliar no patrulhamento de fronteiras, impedindo que trezentos fuzis entrem no Complexo do Alemão. Acabar com o tráfico? Aí é mais complexo. A única coisa que pode acabar mesmo com o tráfico é a legalização das drogas. Uma equação simples: enquanto houver consumo ilegal, haverá tráfico. De qualquer forma, a conquista de territórios perdidos e consequentemente das liberdades civis de seus moradores (conquistas que não combinam com abusos da polícia, que, segundo alguns, participam de uma caça aos tesouros deixados por traficantes que fugiram pelo esgoto do PAC), é um grande avanço e merece aplausos, faz a gente pensar por que demorou tanto (Copa, Olimpíadas, não importa, antes tarde do que nunca).

Me chamou a atenção uma entrevista do chefe da Polícia Civil dizendo algo do tipo: “Os bandidos da Rocinha que não se metam com a zona sul, senão vai sobrar para eles”. Os ataques dos bandidos à zona sul do Rio certamente precipitaram a reação do governo, mas o domínio de uma parcela da cidade por um poder que não o instituído já não é motivo suficiente para uma ação como a da semana passada? Enfim, a retomada da Vila Cruzeiro e do Alemão pelo governo é exemplar e importante especialmente para devolver direitos civis aos moradores das respectivas comunidades, e as UPPs são um grande projeto, pois é o Estado finalmente se fazendo presente em bolsões de pobreza historicamente negligenciados por políticos.

Mas vamos com calma. É fundamental que haja uma reforma profunda na polícia; os policiais ganham muito mal (vale pensar sobre a PEC 300), são muito mal treinados, trabalham em péssimas condições e têm na corrupção uma cultura instituída. É urgente fortalecer as corregedorias e combater a corrupção policial! É preciso que as polícias ajam com a inteligência que demonstraram nas invasões; coordenadas. É fundamental que haja um patrulhamento nas fronteiras e rodovias e que se combata o tráfico de armas; que haja reforma do Código Penal para que o bandido perigoso não saia logo e para que o ladrão de galinha apenas preste serviços comunitários; e é importante que se construam presídios de segurança máxima que impeçam um bandido de comandar seus negócios da cadeia.

Tenho certeza de que isso vai evitar muito sangue derramado na pura e simples política de confronto. Mas, mais do que tudo: a questão da segurança pública passa necessariamente pela questão social, e isso não é esquerdismo naif. As comunidades pobres precisam deixar de ser tratadas como um caso de polícia. Precisam de hospitais, saneamento básico, emprego, esporte, lazer e, principalmente, educação e cultura. Assim como é melhor não deixar o fuzil entrar do que trocar tiro com ele, é melhor cuidar para que o jovem de periferia tenha alternativas antes que ele se transforme num daqueles cem caras fugindo que a gente viu na TV.

*Wagner Moura é jornalista e ator e escreveu este texto no dia 2/12/2010

Fonte: Revista Muito

Comentários

  1. O problema é tão profundo...vejo as pessoas muito eufóricas e tenho medo de estar sendo pessimista....medo do problema estar apenas migrando de um lugar pra outro...

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  2. É isso aí... por tras de toda essa ação há uma questão social que precisa ser vista. Não é só invadir e agora dizer que acabou o tráfico!

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