Crítica: Hamlet e o prazer da palavra



Não é apenas a tradução – assinada por Aderbal Freire-Filho, Barbara Harrington e Wagner Moura – que faz a diferença da nova montagem de Hamlet, de William Shakespeare, em cartaz no Teatro FAAP, mas um conjunto de qualidades que consegue surpreender-nos. Mesmo com seus mais de quatro séculos de idade, incontáveis montagens e um sem-número de estudos e dissecações teóricas sobre, Hamlet, em montagem encenada por Aderbal Freire-Filho e protagonizada por Wagner Moura, tem o mérito – o mais poderoso trunfo frente a um público acostumado mais a imagens que à poesia das palavras – de desvelar o prazer do texto ouvido, tão bem compreendido e interpretado que ele está.

De estrutura impecável, Hamlet é daqueles textos que quanto mais o lemos, quanto mais escritas cênicas, oriundas dele, nos são apresentadas, quanto melhores interpretações surgem do rico universo que permeia o castelo de Elsinore, castelo dinamarquês onde se desenvolve a trama, mais nos aproximamos de um espelho que reflete, sem cessar, diferentes partículas do macrocosmo das paixões humanas. Tal “labirinto de espelhos” pode nos levar à multiplicação caótica de fragmentos que, até pode nos dar certo gozo estético, mas deforma o objetivo original.

Antecipando-se ao poeta Fernando Pessoa, quem diria, mais de dois séculos depois, que ao escrever sobre sua aldeia escrevia sobre todo o universo, o castelo de Elsinore é a aldeia que Shakespeare posicionou seu herói, o príncipe Hamlet, incumbido de uma vingança que o atormenta, já que seu universo estimado é o do intelecto e não o da força bruta.

Inconformado com o apressado matrimônio entre Gertrudes (Carla Ribas), sua mãe, e Cláudio (Tonico Pereira), seu tio e, agora, rei da Dinamarca, o jovem príncipe Hamlet (Wagner Moura) é avisado por Horácio (Caio Junqueira) que o fantasma de seu pai, o Rei Hamlet, vaga pelo castelo, durante as madrugadas, com semblante triste e trajando a armadura que usava na ocasião em que venceu batalha com Fortimbrás. Hamlet fala com o fantasma que lhe conta que sua morte foi, na realidade, um crime de seu irmão que tirou, assim, sua coroa, sua esposa e sua vida. A nefasta sombra que pairava sobre a legitimidade do casamento entre as mãe e seu tio que enchia o príncipe do fel melancólico é desnudada.

Nessa espécie de prólogo agourento da tragédia que está por vir, Aderbal Freire-Filho já deixa clara a concepção metateatral que guiará sua encenação ao conferir ao fantasma uma interpretação dividida entre os atores que vivem outros personagens da peça. Essa “multiplicação” do fantasma equivale ao sistema coringa utilizado no Teatro de Arena e denota o jogo teatral evidenciado e, também, essa “explosão” da individualidade coloca a figura do fantasma que evoca justiça, no caso, por meio da vingança, como aspiração de toda uma massa cansada da realidade manchada por crimes motivados pela sede de poder.

Mas, de carona na idéia levantada pelo crítico literário Harold Bloom em Shakespeare e a Invenção do Humano, o personagem Hamlet supera a própria peça Hamlet em sua multiplicidade de leituras, como se ele fosse uma espécie de totem que vai além do comumente esperado pelos protagonistas das “tragédias de vingança”, gênero ao qual o texto tem falsa filiação.

Posto isso, fica evidente a “loucura” representada pelo príncipe, “por astúcia”, ser um dos inúmeros meios utilizados pelo príncipe para confirmar o que confidenciou o fantasma e, assim, não cometer possíveis injustiças.

Outro signo que é estabelecido logo de cara, a câmera que, quase sempre, Horácio manipula, funciona como um recurso capaz de focalizar emoções mais intimas captadas nesse close cinematográfico, além de ser o olho que tudo registra o que ganha enorme sentido quando Hamlet pede a Horácio que conte sua história a todos que vierem depois de sua morte.

Há uma subtrama amorosa e que só faz agravar, ainda mais, o desenlace trágico de Hamlet. O jovem príncipe, com enleios poéticos, cortejava Ofélia (Georgiana Góes), filha de Polônio (Gillray Coutinho), o falastrão conselheiro de Cláudio, que identifica a “loucura” de Hamlet como mal de amor negado por Ofélia. Fato que não é real, pois, incumbido da vingança, príncipe é obrigado a abdicar de seus projetos pessoais.

O principal mérito da encenação de Aderbal, dentre outras, é que ela consegue nos colocar na mesma sintonia de entendimento dos intérpretes sobre cada um desses pequenos fragmentos revelados a cada fala, a cada segundo que a peça avança, com o frescor de quem vivencia, agora, a história. Surpreendente toada que nos faz pensar que assim era a popularidade do teatro elizabetano. Não há concessão ao coloquial em detrimento da poesia, mas o equilíbrio de entendimento da mensagem e da profícua interpretação pelo emissor, comunicação direta.

Dentre os 10 atores que formam o elenco de Hamlet podemos destacar pelo menos cinco deles com interpretações marcantes e notáveis. O primeiro deles é o ator Caio Junqueira que dá uma dosagem certa de doçura e lealdade como Horácio, o fiel amigo de Hamlet. Seu amor incondicional ao amigo, sem conotações sexuais, muito tem a dizer àqueles que não conseguem enxerga um amor fraterno, sem outro interesse que ver o bem-estar do amigo.

A rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, vivida pela atriz Cláudia Ribas, segue uma linha mais alienada e inocente da personagem. Mesmo tendo culpa no cartório, a máscara que ela usa está tão bem pregada à cara que ela prefere acreditar na loucura do filho a admitir o equivoco de ter-se casado depressa demais com o cunhado assassino. A cena em que ela conversa com Hamlet em seu quarto, logo após a representação da peça que revela, definitivamente, a culpa de Cláudio, traz altos wats de potência emocional e detona, a parir de então novos contornos dados por Carla Ribas à personagem, como se, realmente, seu coração esteja repartido em dois, conforme Gertrudes afirma para Hamlet.

A composição de Tonico Pereira para o usurpador rei Cláudio é muito rica, repleta de pequenos sentimentos contraditórios que vão da arrogância maquiavélica de quem não mede esforços para conquistar poder a franca ciência de que cometeu crimes para alcançar tal conquista. A cena em que ele se questiona sobre a natureza torpe de seus atos, causadoras de um desenrolar de acontecimentos nefastos, como castigo merecido, o ator dá dimensão ampliada e verdadeira do personagem e aumenta a possibilidade de notarmos que o cinismo e a arrogância, a partir de então, são, sobretudo, estratégias de sobrevivência.

Dando o necessário respiro à tragédia, encontramos uma concepção de Polônio, destacada em sua comicidade, por Gillray Coutinho, com uma composição corporal que acentua, ainda mais, a retórica patética de seu personagem.

Protagonizar Hamlet é tarefa espinhosa, delicada e, por que não, ingrata. Assim como a personalidade do herói extravasa todas as minúcias do ser humano, a quantidade de interpretações do papel que se tornaram referência por sua qualidade aumenta, ainda mais, a responsabilidade e o desafio de entregar-se ao papel. Nesse sentido, podemos dar um aplauso especial a Wagner Moura que, no auge de seu sucesso, topou enfrentar o desafio de mergulhar na pele e espírito do príncipe Hamlet. E consegue deixar sua marca no rol das interpretações marcantes do papel.

O Hamlet de Wagner Moura, diferente de nossas imagens referenciais, não se qualifica como o “poeta melancólico”, ao contrário, seu sarcasmo, sua inteligência acima da média – que o possibilita os trocadilhos que faz e a espirituosidade com que manipula as palavras – nos leve ao riso e ao encantamento. Quando ele representa que está louco, por exemplo, visualizamos perfeitamente a dinâmica de um jovem tocado pelas mãos do Arlequim, da commedia dell’ arte.

Os figurinos de Marcelo Pies ressaltam a jovialidade dos personagens, vestidos com variadas peças de moletom que, também, facilita no desempenho corporal deles e não deixa nada a dever às roupas que desfilam nas semanas de moda.

Completam a ficha técnica a eficiente criação de luz, por Maneco Quinderé, a singela trilha musical de Rodrigo Amarante e a cenografia de Fernando Mello da Costa, quem assina, também, os adereços de cena, e Rostand Albuquerque, com sutis referências ao palco elisabetano.

HAMLET

De William Shakespeare

Tradução de Aderbal Freire-Filho com Barbara Harrington e Wagner Moura

Direção de Aderbal Freire-Filho

Com Wagner Moura, Tonico Pereira, Carla Ribas, Georgiana Góes, Caio Junqueira, Cláudio Mendes, Fábio Lago, Felipe Koury, Gillray Coutinho e Marcelo Flores

Cenário: Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque

Iluminação: Maneco Quinderé

Figurinos: Marcelo Pies

Trilha Sonora: Rodrigo Amarante

Produção Executiva: Nil Caniné

Direção de Produção: Sérgio Martins

Realização: Sérgio Martins & Wagner Moura

Patrocínio: Bradesco PRIME

Apoio: FAAP

SERVIÇO

Horários: Sextas e sábados, às 20h. Domingos, às 18h

Teatro Faap (Rua Alagoas, 903 – Consolação)

Tel: 3662-7233 / 3662-7234

Ingressos a R$ 80

Duração: 170 minutos (com intervalo de 15 minutos)

Lotação: 500 lugares

Classificação Etária: 14 anos

Fonte:Aplauso Brasil
Texto editado por Andressa Santos

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