Tropa de Elite ganha Festival de Berlim



Uma vitória inesperada do filme brasileiro

Não estava na lista dos favoritos e foi mal recebido por parte da imprensa internacional quando da sua projecção ("filme de recrutamento de fascistas", para a Variety, ou "faz a apologia da tortura", segundo o Le Monde). Mas o filme brasileiro Tropa de Elite, de José Padilha, o mais visto e discutido no Brasil em 2007, ganhou ontem o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Atribuído por um júri presidido pelo realizador franco-grego Costa-Gavras, insuspeito de simpatias "direitistas".

Já comprado para exibição em Portugal pela Lusomundo, Tropa de Elite tem como tema o BOPE - Batalhão de Operações Policiais Especiais, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que combate os traficantes de droga nos morros, e centra-se nas personagens do capitão Nascimento (Wagner Moura) e dos aspirantes Gouveia (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), que partilham a mesma indignação pela corrupção que grassa na polícia e pelo poder que os traficantes ganharam, conseguindo inclusivamente manipular as ONG que trabalham nas favelas.

Padilha queria filmar um documentário, na sequência do seu aclamado e premiado Ônibus 174, e escolheu o best-seller Elite da Tropa, do antropólogo Luiz Eduardo Soares e dos oficiais do BOPE André Batista e Rodrigo Pimentel. Mas decidiu transformar o filme numa ficção baseada em factos reais, ao perceber que não ia conseguir convencer os operacionais do BOPE a dar depoimentos sobre a sua acção.

A imprensa brasileira dedicou extensos dossiers e temas de capa ao filme, atacado por boa parte da esquerda brasileira, mas defendido, entre outros títulos, pela influente revista Veja, cuja crítica de cinema Isabel Boscov escreveu que Tropa de Elite rompia "com a tradição nacional de narrar uma história pelo ponto de vista do bandido", e com a "visão pia e romantizada do criminoso". O filme tornou-se num sucesso no Brasil mesmo antes de se estrear, quando uma cópia de trabalho foi pirateada para DVD e vendida em todo o país.

Falando ontem à imprensa em Berlim, e citado pela Folha de São Paulo, José Padilha disse acreditar que os críticos estrangeiros que atribuíram ao filme um carácter fascista foram influenciados por colegas brasileiros que reprovam Tropa de Elite desde que se estreou no Brasil. Algumas das críticas favoráveis que o filme recebeu em Berlim comparam-no a Cidade de Deus.

Padilha disse ainda que os traficantes de droga brasileiros são "violentos e cruéis. Já é hora de acabar com essas categorizações entre direita e esquerda, porque o que interesse é o que está acontecendo".

O júri da 58.ª Berlinale distinguiu ainda o documentário de Errol Morris Standard Operating Procedure, sobre o escândalo das torturas em Abu Grahib (Grande Prémio do Júri), e Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson (Melhor Realizador).

Fonte: DN Online

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