Nenhuma vaia, mas poucos aplausos para Tropa de Elite em Berlim



Filme brasileiro foi exibido nesta segunda-feira e concorre ao Urso de Ouro

Coisas muito estranhas ocorrem com este filme, observou o diretor de fotografia de Tropa de Elite, Lula Carvalho. Depois de virar um fenômeno no mercado pirata de DVD no país, onde as pesquisas apontam que foi visto por 11,5 milhões de pessoas, o filme de José Padilha com Wagner Moura na pele do Capitão Nascimento ficou tão falado que só o New York Times lhe dedicou duas reportagens. E tudo isso antes que Tropa de Elite estreasse nos cinemas. Nesta segunda-feira o filme aterrissou na Berlinale, mas se você pensa que foi tudo normal está subestimando a força do estranhamento que acompanha Tropa de Elite.

Às 9 horas (horário local) formou-se o maior pandemônio na porta do Palast, o palácio de projeções do Festival de Berlim. Alto-falantes informavam que o filme seria exibido numa cópia com legendas em alemão — normalmente, elas são em inglês — e, portanto, seria necessário pegar fones de ouvido para acompanhar a tradução simultânea.

A repórter Flávia Guerra, do Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, que está em Berlim, fez o sacrifício e acompanhou a tradução. Ela queria ver como ficariam as gírias em inglês. Tomou um choque. A narradora — era uma mulher — escrevia as cenas que passavam, misturando diálogos dos atores e narração de fundo.

Foi assim que a imprensa internacional viu Tropa de Elite e você há de convir que isso altera sensivelmente a possibilidade de adesão a um filme. Criou-se um silêncio É positivo ou negativo para as chances de Tropa de Elite no Urso de Ouro? O silêncio, afinal, pode ter sido a expressão da perplexidade que o filme produziu.

E o positivo veio em seguida. A coletiva lotou. Havia muita gente interessada em discutir Tropa de Elite. O atraso no começo da sessão e, conseqüentemente, da coletiva pode ajudar a explicar por que as pessoas foram saindo, mas no final ainda havia um bom número de interessados.

O diretor Padilha, o produtor Marcos Prado, os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro e o diretor de fotografia Lula Carvalho sentaram-se à mesa. Não houve comparações com Cidade de Deus. Em compensação, a grande questão, claro, era por que fazer um filme desses do ângulo da polícia?

— Meu primeiro longa foi o documentário Ônibus 174, que focalizava os mesmos problemas do ângulo dos excluídos. Um ex-menino de rua seqüestrava um ônibus, o caso foi acompanhado ao vivo pela TV e terminou de forma sangrenta, com as mortes do seqüestrador e uma refém. Ao escolher contar a história do ângulo do seqüestrador, fui chamado de esquerdista, comunista. Ao contar a história de Tropa de Elite do ângulo do policial, passei a ser chamado de fascista. São simplificações que não fazem mais sentido. Constroem um muro que, aqui nesta cidade, já foi destruído. As coisas hoje em dia são muito mais complexas — disse.

Wagner Moura aproveitou para dizer a uma platéia internacional o que não se cansa de repetir no Brasil:

— Segurança pública no Brasil é tão falha e as pessoas se sentem tão desprotegidas que terminam por ver neste personagem atormentado por seus excessos o herói que vai salvá-las.

Os jovens entendem. Os mais velhos, com seu humanismo talvez mais tradicional, encaram a proposta com mais desconfiança. Tudo, agora, é com o júri.

Fonte: Clic RBS

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